Marcela entrou em casa com os olhos semi-cerrados. Com o cansaço do dia lhe ardendo no corpo, ela se movia ausente de si pela casa, mecânica do costume das coisas.
Lançou um olhar rápido para a cozinha: tinha almoçado? Talvez não. Não importava, não sentia fome havia muito tempo, e se tinha, o apetite lhe faltava. Limitou-se ao copo d’água corriqueiro, que teria deslizado mais refrescante garganta abaixo caso ela já não estivesse tão distante das pequenas felicidades do mundo.
Tinha tantas obrigações, tantas correrias, tantos importantes e urgentes que vivia fora de si, virtual, mecânica e prática. Um corpo jovem e condicionado.
Sobre a mesa da sala, no entanto, percebeu as flores.
Eram as suas rosas amarelas, as que comprava quase todo dia, por uma necessidade muda, para colocá-las ali, no jarro.
Mas as rosas sempre amanheciam murchas.
Mas era assim mesmo: quase todo dia era preciso trocá-las, elas não duravam. Faria isso amanhã cedo, antes de ir trabalhar.
E foi dormir, gasta que estava do dia. Do mês, do ano, dos tempos. Tempos tão corridos que ainda lembrou-se de lançar um olhar pesaroso sobre os papéis do trabalho.
Vinha pensando em ir ao médico, porque também não andava dormindo direito. Os olhos fechavam, a mente afrouxava... mas ela permanecia ligada. Se sentia como um computador, esgotado de tantas informações vazando. E não podia desligar. Passava a noite consciente de que estava dormindo um sono agoniado, meio descanso, meio cansaço. Acordava de um salto: amanheceu! E saía saltando pela casa, fugindo do atraso que nunca tivera, e que, por isso mesmo, tanto temia. É que tinha um medo toda vez que olhava para o relógio: horas, minutos e segundos, vazando loucamente, escorrendo por ela, pelas coisas. E então corria junto, para não vazar também e perder o compasso.
Naquele novo dia, que acabara de estrear, não foi diferente: na hora marcada entre o relógio e o seu corpo ela pulou da cama, e saiu apressada pela casa, revisando na cabeça o de ontem e o de hoje.
E as rosas murchas! — era preciso correr em dobro, que ainda tinha a floricultura para passar.
Correu o triplo, para garantir.
Era o jeito das coisas na vida.
E saiu de casa com a certeza consoladora de que as rosas resplandeciam sobre a mesa, jovens e formosas. Como ela não tinha mais tempo de estar.
Horas depois, chegou em casa, no momento certo, marcado.
Fechou os olhos e inspirou fundo: que dia!
E, repentinamente, calma..., um bem-estar, um prazer tão sem propósito lhe invadiu o peito! Ainda abriu os olhos a tempo de ver as rosas brilharem, sobre a mesa.
Mas aquele era um instante eternamente perdido.
Pronto. Já tinha lhe escorrido pelo corpo, já não existia mais. O ar já era denso, pesado duma agonia tão grande, tão forte.
Foi dormir seu sono sofrido de todos os dias. As rosas, sobre a mesa, no entanto, morriam silenciosamente. Envenenadas.
sábado, 26 de julho de 2008
Rosas amarelas
quarta-feira, 23 de julho de 2008
sexta-feira, 11 de julho de 2008
o homem que lia o jornal de ontem
Quem passasse na Rua da Soledade, na frente da casa 53 pela manhã, com certeza viria dois jornais jogados no tapete da frente. Josefim tinha uns 30 anos, apesar dos cabelos grisalhos.Não saia de casa nem para comprar comida: mensalmente vinha um entregador com uma pequena sacola e deixava na frente de sua casa as comidas de necessidade básica, e por um buraquinho na porta ele passava as mãos magras com o dinheiro. Era de poucas palavras e considerado um 'louco-esquesito' pela vizinhança.
Sua fama vinha pela fato de sempre ler os jornais do dia anterior, passando a noite toda concentrado naquelas notícias deliciosamente atrasadas. Em uma de suas aparições pela rua para apanhar o jornal que o " pirralho-jornaleiro" havia posto longe de seu portão, um garoto lhe abordou:
- Seu Josefim, por que o senhor ler sempre o jornal de ontem?
- Por que você ler o jornal do dia?
- Pra saber as notícias do dia.
- Eu leio o jornal de ontem para saber as notícias de ontem, ora pois!
E entrava sem mais conversa. A cada dia a vizinhança se intrigava mais com os seus mistérios. Ele não tinha telefone, tv ou rádio! Seu único meio de comunicação era o tal jornal ultrapassado. Ele acreditava que as notícias velhas eram mais atraentes, pois podia rir delas, chorar delas ou até mesmo xingá-las e depois ler todas as desgraças, ir dormir tranqüilo. Afinal, as notícias já haviam passado e nada pudia se fazer para mudar. E assim passava seus dias sozinhos ansiando o jornal para pegá-lo um dia depois.
Certa vez, viu no jornal uma notícia de um homem que lia jornais. Surpresa. Ele havia morrido segundo a notícia. Com letras grandes e vermelhas o jornal falava de seu assassinato, quando fora pegar o jornal havia sido abordado por um moleque ladrão e morto pelo mesmo. Inquietou-se.
Sentado em sua poltrona de sempre, pensava no acontecido. Ele havia morrido? Como nunca havia percebido? A vida as vezes nos prega peças e em pleno dia se morre. O jornal caiu de sua mão.Levantou-se, foi até a janela, riu de sua própria vida, uma gargalhada leve de descanço. Foi até o guarda-roupa e pegou a arma, sentou-se na poltrona. A luz vermelha do pôr-do-sol o tentava, lhe mostrando o que fazer. E aos poucos o jornal de ontem no chão era tomado por um líquido da mesma cor do céu, o céu que trazia notícias novas.
sábado, 5 de julho de 2008
Contra a correnteza
Ela o viu ali sentado, sozinho. Pousou ao seu lado, sem o menor ruído. Pôs-se a observar. Desenhava coisas que ela não conseguia entender, mas também não perguntava. Apenas observava.
Ele gostava daqueles olhos verdes, atentos, a tentar decifrar o que talvez só os dele conseguissem ver.
Complexo demais.
Que nada.
Tão simples que ninguém conseguia enxergar.
~~
Ora pois!
Não quizera dizer, estava dito!
Cabia ao leitor interpretar.
Mas isso não vem ao caso. Voltemos aos olhos verdes.
Sem dizer palavra alguma, conversaram por horas. Aquele olhar ficaria na mente por muito tempo. Parecia entender seu desespero, sua dor. E estaria sempre lá, para ouvir, acalmar, confortar.
Ele sentia algo diferente. Um gosto, um cheiro, um sei lá o que. Era estranho e bom. Como um arrepio, daqueles que se sente quando se está em perigo, ou quando o carro desce de vez o viaduto. E era constante. Durava tanto quanto os verdes ímãs atraíssem os seus olhos.
~~
E não foram os lábios o que desejou.
Tampouco os seios, as coxas.
Queria aqueles olhos,
Aquele convite a um universo até então desconhecido.
~~
Sabia que acordaria, então simplesmente sonhou um pouco mais.
E mais.
Mas era hora de partir.
As pernas pareciam não concordar, mas ela precisava ir.
E tão silenciosa quanto ao chegar, se foi.
Sua pequena utopia nunca deixou de o ser.
E a alimentava a cada encontro.
Um forte laço mantinha viva essa vontade.
Apenas a vontade. Tornar real estragaria a brincadeira.
~~
A Escolha
O que serei da vida?
Respondam-me!
- se só posso responder -
A escolha desde agora me persegue
Devo decidir.
a Existência
despenca disso.
Tudo é impróprio.
Se é prazeroso,
não me vale a pena.
Se é valoroso
não me agrada.
Mundo cruel,
capitalismo podre,
- e pobres são meus poemas -
Sou jovem,
as rédias da existência
já me são concedidas.
Mas que tristeza infinda,
que dor melâncolica,
esta sociedade sem rumo...
O que farei?
A academia é meu destino?
Afirma o coração.
O tesouro está nas máquinas que dizem?
Acusam os neurônios.
Entre razões, emoções
em que confiar?
A eminência da escolha me atormenta,
sinto medo de perder vida.
- quero consolo de alguém... -
Quem será meu conselheiro?
Se habilitam vários...
Mas a calma chegará,
Entendo, falta tempo.
E a escolha?
o senhor milenar mostrará...
segunda-feira, 30 de junho de 2008
É assim mesmo
A direção é o médico, Deus, o paciente - e os outros - que dão; a produção é o que faz o bebê se desenvolver - todos os cuidados dos diretores e outros mais - a mãe, e o Beetovenn que o pretenso ser escuta – o pai também ajuda às vezes, dependendo de sua erudição e amor.
terça-feira, 24 de junho de 2008
descobertas de domingo
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Disposições
Ela era alta, esguia e impertinente. Ele quase não a aturava. E se digo quase é porque ela ainda era alta e esguia. Arrisco bonita. Arrisco bem bonita. E nem assim ele a aturava um pouco mais.
Era uma quota: ela era alta, esguia e bem bonita, e ele a aturava até ali. De resto, ela não lhe aparecesse falando aquelas coisas dela, que ele não tinha paciência! Por isso o quase de antes.
Bem, eu já disse que ela era impertinente. E era mesmo. Tinha uns jeitos, uns olhares, umas conversas... e ele sempre olhando de lado: ninguém agüenta isso, meu deus! E ela lá. Impertinente do mesmo jeito.
Um dia ele disse: eu não lhe agüento!
Ela era impertinente: é claro que ficou por isso mesmo.
Ou melhor, não ficou. Ela já sabia que ele não a agüentava. E por isso mesmo que ainda estava por ali: era alta e esguia, podia se dar àquele luxo. Além do mais, tinha seus prazeres maliciosos e suas vaidades: sabia até onde ele a aturava, então puxava a corda.
Ele se achava um tolo. Um idiota? Antes um estúpido. Estúpido aturando ela. Ou não a aturando. Dá no mesmo. Continuava sendo estúpido: ela continuava ali.
E ela adorava secretamente, ou nem tão secretamente assim, quando ele curvava uma ruga no rosto: eu não lhe agüento! Um dia ela arriscou dar uma risada. Ele ficou vermelho, vermelho e... ah!, era um estúpido. E ela era impertinente.
Se ela gostava, um pouquinho que fosse, dele, ninguém sabe. Ou pelo menos eu que não sei. Pra você dá no mesmo. O que eu sei, o que se sabe, é que ela gostava muito de si mesma: era impertinente, alta e esguia. Deus deu o pão a quem tinha dentes. Ficava sendo justo.
Ele podia não gostar dela de verdade, mas gostava de conveniências. Então ficava gostando dela até onde ela era adequada.
E ela sabendo daquilo ria-se, ria-se muito. Que ele ficasse vermelho, mais um triunfo para ela colecionar.
E nisso gastaram não sei quanto tempo. Arrisco muito.
Mas um dia ela quis ser menos impertinente. Porque, não me perguntem. Vai ver acordou com os olhos na lua e pensou: amanhã eu quero ser alta, esguia e agradável, quem sabe. Eu não sei.
O fato é que, dessa vez, ela não sabia o como da coisa. Olhava para ele, se a ruga aparecia não olhava mais. Falava com ele, se a ruga aparecesse não falava mais. Tentava e acabava dando trégua. Até que se convenceu: a ruga não aparecia quando ela era só alta e esguia. Ah, e bonita.
Mas não bastava! – para ela, é claro. Ficava faltando alguma coisa. E ainda podia tentar a impertinência, se não tivesse acordado com os olhos na lua.
Ele ficou pensando: está mais impertinente que o normal! Ah, que ninguém agüenta isso!
Ela era adivinha. Adivinhou que com ele não conseguia nada além daquilo.
E foi embora.
Dizem que ele sente saudades. Acho que sim.
domingo, 1 de junho de 2008
Ensaio sobre o amor
Em geral dividem o amor em três: amor eros [ carnal ], amor filia [mãe e filho, irmãos, amigos] e amor fati. [ amor ao destino].Pra mim é um erro confundir amor e paixão. Amor eros é paixão, e tem fim: logo não é amor. Quando você diz " eu te amo". Você não está mentindo. Você sente amor por aquela pessoa e diz isso para que ela saiba. Assim, provavelmente, ela ficará perto de você e saberá o quão é estimada. Você a trata bem, para ela ficar bem e conseqüentemente, você também se sente bem, feliz. Pouto tempo depois o amor parece ser maior. O amor cresceu? Amadureceu? O amor está dividido em níveis? Era realmente amor o que você sentia quando disse da primeira vez? O que é amor?
" Sair de si por três minutos, isso é amor" (Cazuza)
A melhor definição que já vi. É sentir algo tão esplêndido e efêmero que chega a ser irreal. A ponto de você se perguntar se está realmente ali, se realmente aquela pessoa é tua e como você pode sentir tal imensidão. O amor é a descoberta e não palavras. é você se descobrir a cada dia por aquela pessoa. Por mais que você fale com a pessoa ela sempre tem algo pra lhe contar e te surpreender. "O bom de conhecer pessoas é que um dia ela pode te apresentar a você mesmo" (trecho do filme waking life).
Atingir o inatingível, incessantemente, infinitamente. Isso explica por que a amizade dura, por que o laço entre mãe e filho é tão forte, e por que existem casais que se conhecem e morrem juntos. O amor é eterno.