domingo, 30 de novembro de 2008

Kaiak Ventura




E em uma manhã qualquer ela decidiu. Sim, havia decidido há tempos, mas, ah, como ela era covarde! Tentaria convencê-lo da sua decisão, mas não era convincente ou talvez ele fosse teimoso demais. " Você não me liga, não vem me ver mais, você acha que realmente me ama?" E a resposta dele era sempre a mesma: Sim.Incondicionalmente. Porém ela não desistia, reclamava de cada ato dele e odiava, principalmente, aquele perfume que, por mais que ela falasse, ele nunca deixava de usar. Kaiak ventura. Foi por esse perfume que ela se apaixonou, e por ele que ela agora sentia mal-estar.

Se conheceram numa festa, coisa normal, como todos os casais comuns. Logo namoraram, riram, choraram, cresceram, foram ao cinema de mãos dadas, e, como toda história de amor, estavam chegando ao fim. Marcaram para se ver na sorveteria, às 14h. Ele estava decidido, ela confusa. Ela era um pouco impulsiva e colocava a culpa no horóscopo. Queria ser rápida e direta. Ela abriu a boca pra falar, mas, ah, como ela era covarde! Se calou, chorou. Ele a abraçou. E, como sempre, disse: sim? Não, não dessa vez. Não sei se foi porque a tarde estava com cheiro de morango ou por que o sol brilhava forte, mas o fato foi que pela primeira vez ele não fez como sempre. De tanto ela tentar o convencer que ele não a amava mais, ela conseguiu. " Você estava certa: isso não é amor. Você teve muita paciência comigo, obrigado. E desculpa ter atrapalhado a sua vida." As lágrimas cessaram.

Às vezes, é preciso tropeçar para saber onde está o seu alicerce. Às vezes, o passado é uma lembrança tão linda que seria um erro confudi-lo com o presente ou futuro, e o mais sensato é guardá-lo. Às vezes, somente às vezes, o sempre nem sempre é sempre e a surpresa nos bate na porta, e não estávamos a esperando, paralisamos. Poderia ter falado algo? Poderia ter sido diferente?

Ela foi andando para casa pensando naquele rapaz de olhos de vagalume, tão encantador. Teria sido o contidiano que a cegou ou teria sido aquele cappuccino? Talvez ela tenha se arrependido, talvez ela tenha ficado tranqüila. O que se sabe é que até hoje ela treme ao sentir o cheiro do kaiak ventura.

sábado, 29 de novembro de 2008

caê-em-canto

" Lembro com muito gosto o modo como ela se referia a ele. Pelo menos ela o fez uma vez e isso ficou marcado muito fundo, dizendo: caetano, venha ver o preto que você gosta. Isso de dizer o preto, sorrindo ternamente como ela o fazia, o fez, tinha, teve, tem, um sabor esquisito, que intensificava o encanto da arte e da personalidade do moço no vídeo.

Era como se se somasse àquilo que eu via e ouvia, uma outra graça, ou como se a confirmação da realidade daquela pessoa, dando-se assim na forma de uma benção, adensasse sua beleza.

Eu sentia a alegria por Gil existir, por ele ser preto, por ele ser ele, e por minha mãe saudar tudo isso de forma tão direta e tão transcendente. Era evidentemente um grande acontecimento a aparição dessa pessoa, e minha mãe festejava comigo a descoberta." do livro "Verdade Tropical" de Caetano Veloso



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caê sempre encantando.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

" SOBRE ESCREVER

Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia. "

C.L.

sábado, 22 de novembro de 2008

o que francisco me causa.

É um livro e um blog. Para Francisco, (http://www.parafrancisco.blogspot.com/). Francisco nasce dois meses após a morte súbita do pai, e a mãe cria o blog para desabafar e manter a imagem de Gui, o pai, viva para o filho.

“Que absurdo as coisas durarem mais do que as pessoas”.
É difícil manter as pernas firmes, quando a realidade nos aparece tão clara. Tudo é tão vivo. Como pode simplesmente não existir mais?
E é tudo, tudo verdade. Engraçado como nossa vida é apenas uma história qualquer pra quem olha de fora. Se a gente contar, as pessoas pensam que é ficção.


- e assim fico pensando o que é isso que sinto no meu peito, que é tanto que nem cabe, mas que não consigo passar completamente.

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desculpe, eu precisava mudar esse blog, ele estava muito pálido.
é preciso de cor, é preciso de sangue, é preciso amor.

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Luz, LUz, LUZ , L U C A S, obrigada por ter me mostrado esse blog, obrigada por fazer parte da minha vida.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Sinopse

Perdida no paraíso proibido do amor vivia só, o amor para ela era um segredo guardado. Nunca havia beijado, não de verdade, sem nenhum acordo comercial implícito, seu primeiro beijo foi um carrasco ladrão, perdeu-se a virgindade, o espírito e a salvação.
Por muito tempo tentou viver acompanhada, achava em Carolina sua fiel amiga, até que esta a traiu. E o rubro sangue teve que ser derramado, em pleno dia, ninguém se preocupou, pois, naqueles tempos, nem o governo tinha isso na lista de suas prioridades. Elisa era má, mas não perversa, não ela louca, mas a normalidade passava longe de sua personalidade, no nascer foi amada. No crescer, foi linda por muito tempo, e então morreu. E passou a viver vagando rancorosa com sigo e com Deus para sempre.
Talvez esse fosse seu erro, se esquecer de Elisa, viver só, tendo como objetivo de sua existência assassinar todos aqueles que não agradassem Fonseca. Seu amante abstrato, seu irmão magoado, sua sombra peregrina, seu maior amor-medo. Elisa lutou contra Fonseca, resistiu, mas era fraca, sempre foi, deixou... ele a tomou, escondeu-a dentro de uma casca, mudou sua alma e a fez esquecer de tudo o que tinha aprendido. Elisa ficou nua, e Fonseca a vestiu de trapos velhos e sujos, que a velha Elisa lavava toda manhã. Mas a tarde vinha e Fonseca a tomava e seguiam - se noites de sono e melancolia, em que o espírito da menina moia-se nos muros, nas cidades, nas tabernas...
todos se conformaram com a simplória e alva feição, os cabelos castanhos e os olhos sem expressão, que nada diziam e tudo falavam.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

ímpeto

Faz 3 dias que eu não durmo e foi nesse ar de
dormindo-acordada que o fato aconteceu. Eu estava na parada de ônibus, comendo Doritos,
quando começou a tocar uma (não) música alta onde eu
me lembro de ter escutado algo como: " faz assim que
eu gosto, faz assim e eu me enrosco". Sim, era um
brega. E dos piores. Nesse momento, lembrei que levava na bolsa a minha
salvação: meu MP4. Salve, salve os fones de ouvido,
me livrando do resto do mundo. Salve, salve Placebo,
que começou a tocar nos meus ouvidos.
*
Sentei perto da janela, o vento no meu rosto trazia
uma sensação de leveza e compreensão. Me senti
protegida, sabe? Há coisas que sentimos, sabemos que
está lá, mas não há palavras para descrevê-las, e nem
precisa.
*
Quando eu fico com sono, meus olhos ficam apertados
querendo fechar, assim, os postes passavam rápido
parecendo estrelas, e os faróis dos carros dançavam
formando constelações. Se você quiser,pode tentar, é
só apertar os olhos e ver uma lâmpada, a estrela
estará lá, esperando você a notar.
*
Os passos dados, não eram passos, pois eu não pisava
nada. Eu tinha asas, e isso não era tudo. As
guitarras ainda tocavam, o salgado na boca me
mostrava a razão, descendo pela faringe, sendo
empurrado pelo esôfago, sendo meticulosamente
mergulhado num ácido e digerido no estômago. E a luz,
a luz me dizia o que eu queria ouvir. Transcedi,
transfigurei, enterneci. Senti um alegria efêmera,
que eu ia me afogando lentamente. Como essas pequenas
coisas me fizeram me sentir tão bem? Por que nunca
havia a sentido antes?
*
Esqueci das provas, dos fins, das viagens, das
saudades. Esqueci até mesmo de Jobim e da festa que
eu iria ter no sábado. Vivi apenas o instante. O
instante onde as estrelas era tocáveis, estavam tão
perto que quase cegava, tudo se derretia. Não havia
desespero, medo, amor, futuro. Havia apenas o
instante: belo, intenso, finito.
*
A bateria do meu MP4 acabou, as guitarras, mudas,
se partiram em pedaços empoeirados, o salgado na boca
incomodava. E a luz, a luz me dizia que o devia ser
dito. Quanto mais tempo dura a ilusão, maior é o
baque ao ver a verdade. Crua, simples. Cadê as
guitarras? O salgadinho acabou. Os olhos
lacrimejavam, a realidade é dura demais para ser
mostrada, assim, sem nenhuma preparação. Sinto que
foi até uma covardia ela aparecer assim.
*
A noite é um véu escuro que nos protege do real, ela
é profunda, sincera. No amanhecer, ele começa a ser
retirado e o vermelho que se faz no céu já anuncia:
perigo. Por instantes o sol tenta nos cegar até que o
véu, com pena dos humanos, é posto novamente, para
eles descansarem do seu fardo: viver. Mas o que isso tudo realmente importa?

Prefiro minhas estrelas artificiais.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

NÃO
Me é
dado saber quando ou como,
Poucos souberam e eu sei.
Mas apesar da contramão do entre tanto
Por ventura e porém,

Fez-se. E fez.

.cronos. e ...Theos...

No transe profundo por séculos
dormimos conscientemente,
amando e temendo
um quase tudo
que criaram OS ESPERTOS
que podiam.
(e puderam)

Num ponto de nós mesmos,
superfície do abismo de luz e ignorância,
inocência e humanidade,
fomos nos tornando estrelas pequeninas,
explodindo em esplendor e segurança

ou caminhando com um pássaro roubado
que nos escondeu na realidade sem rumo.

E
contamos, sem um mínimo de sabor,
cada detalhe de incerteza ou veracidade,
ficando
acompanhados
do riso
sem dentes
e alegria
de gritos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O azul na película

Tânia entrou no estúdio sorrindo, tranqüila, os saltos ecoando pela sala acústica. Havia qualquer coisa nos seus ares que a distanciava daqueles objetos todos à sua volta. Ela talvez não fosse mais dali. Os olhos sorriam por baixo dos óculos escuros. E vasculhavam. À procura de quê?, era a pergunta que vinha flutuando do outro lado da sala, mas ia ficar mesmo sem resposta, ela agora era a mulher das roupas escuras, do sorriso tranqüilo por baixo da maquiagem e dos cabelos bem amarrados.


— Estava com medo de atrapalhar, mas você não está fazendo nada mesmo.


Ela não o olhava: ele não estava mais ali? Não. Ela que tinha saído, afastara-se a alma e a despedida do corpo era tão insuficiente, chegava a lhe ser desrespeitosa. Quem era aquele mulher que lhe aparecia sem mostrar a expressão, que não o encarava e que sorria aquele sorriso estúpido, sem qualquer sentimento? Não era a mesma de antes, das noites de trabalho, da garrafa térmica cheia de café, a mulher que lhe escondia os cigarros e que enchia as garrafas de gim com chá.


Manteve os olhos baixos, ainda deviam estar vermelhos, e não ousou falar alto, algumas coisas precisavam ser sussurradas, pra que fosse possível fingir que nunca foram ditas.


— Você não atrapalha.


As duas eram diferentes, ele sabia. Muito, muito diferentes. Ele, mesmo, reagia diferente a cada uma. Mas estava ali o problema: qual encanto o prendia tão firme às duas?


— Você voltou mais cedo.


— É... tinha umas coisas pendentes por aqui. Além disso, eu estava curiosa.


Tânia sorria para as fotografias que apanhava de cima da mesa. Lá estava aquela menina, a mesma de sempre: jovial, bonitinha, sorrindo largo, sorrindo muito riso. Tem coisa que precisa se imprimir numa fotografia. Tem coisa que precisa ser eternizada, pra que depois a gente entenda.


— Você revelou quando? — e não levantou os olhos de novo: o céu era maravilhosamente azul, azul pra se derramar os olhos, a alma, o corpo, as memórias todas dentro da película.


Mas ele agora a encarava. De que cor estavam seus olhos? Ela não ia ver. Ele a encarava, quase trêmulo: um clímax segurado por tempo demais entre as mãos. Agora estava todo ferido: a carne, o corpo exposto. Tudo quanto era alma se lacerando lentamente. E ela trazia o corpo aberto e a alma fechada, nunca pudera ser tão inatingível.


— Hoje de manhã — a voz escapava, soprando-se para fora.


Quis se virar, abaixar a cabeça, sair correndo dali. Não queria olhá-la, queria sentir repulsa, queria lhe dizer para não voltar. O nó na garganta lhe confirmava dolorosamente que não era mais preciso.


— Você quer? Eu fiz duas cópias.


Ela ria, agora: tirara os óculos, o encarava de frente. Era o riso de antes?, ele procurava, sentindo o desespero daquele tempo todo aflorar. Precisava ser, tinha de ser. E se fosse? Não havia mais ninguém ali para ele: então não tinham ido os dois embora? quando?

Mas ela só sorria, tranqüila.


— Não, Roberto: o céu não era tão azul.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Aguàrdeste ou O Sapato

Todos choram.

Velório. As velas choram cera até o pires. 14 anônimos se reúnem ao redor do caixão, sete na esquerda, sete na direita, Julio de mãos com Joana num canto. Niscia atrás do morto no centro. A única cor é a cor do luto. Som das preces, soluço de lágrimas, rubro das paredes.

Niscia não reza e seu véu apenas esboça um rosto, a cabeça pende com vagar para baixo, tudo que há nela é pesado. Sua mão sai do roçar com o negro de seu luto para o encontro com a madeira que guarda o corpo. Seu punho fecha-se enquanto imprime tanta força quanto pode. Súbito pára – censuram seu gesto.

Seu olhar congela nas pálpebras de seu marido.

- Antônio... - Niscia não suporta aqueles olhos e fecha os próprios para não ver.

-x-x-x-

Abre os olhos e vê a sala vazia, exceto pelo caixão e outra mulher. A outra fica defronte Niscia, Antonio entre ambas.

- Meus pêsames...
- Meus pêsames...

Mesmo frente a frente, não ousam se olhar. A outra também veste luto, mas calça sapatos vermelhos, escandalosamente vermelhos.

- Niscia...
- Não.

-x-x-x-

Na sala ao lado 17 pessoas vivas desvendam um morto acompanhadas de café e bolachas.

- Meus pêsames...
- Meus pêsames...

- Meus pêsames...
- Meus pêsames...
- Meus pêsames...

- Meus pêsames...
- Meus pêsames...

- Meus pêsames...
- Meus pêsames...

- (café pelando)

- (...)

- (bolacha mastigada)

- Uma tragédia...
- Sem dúvida...

- Iríamos sair este sábado...
- Estava tudo bem com ele quando nos despedimos na sexta...
- Como uma coisa dessas acontece?

- Era um homem bom...
- Pai de família...

- Seu filho sempre foi como um irmão para mim...
- E você como um irmão para ele...
- (terminando a bolacha) também sinto muito pelo seu filho...

- Quer passear Julio?
- (estende a mão)

- Mãe e filho desamparadas...
- (café) é muito injusto...

- Um homem tão equilibrado...
- Talvez fosse promovido para o mês (mais café)...
- Amava tanto o filho...

- Trabalhava muito...
- Gentil com todos...

- Se houver algo que eu possa fazer pela família...
- Fique próximo, pelo menos por hora...
- Estas horas são sempre difíceis...

(bolacha)

(ainda café)

(bolacha)

(café)

(bolacha)

(bolacha)

(café)

- Ainda desse jeito...
- Suicídio...

- De uma hora para outra...
- Volta para casa do trabalho e...
- Não explica...

- Pagava o dízimo...
- Era praticamente fiel...

- Ele disse algo à Niscia?
- Não sei como perguntar isso a ela...
- Ela está péssima...
- Julio também, quanta tristeza...

(bolacha)

- Eu lembro de uma vez, na adolescência, quando ele...
- (café)

- Jogávamos cartas aos sábados...
- O conheci no escritório...
- Faz tempo...

- A mãe dele é uma santa...
- Toda a comunidade irá apoiá-los...

- (...)
- Não acredito que ele se matou...
- (...)
- (café)

Julio está quieto na quina entre duas paredes, vive seu vazio em paz.

Quatro homens vão para uma sala mais privada fumar os cigarros de Antonio e dividir as antigas garrafas de cachaça que ele guardara – beber o morto até a última gota de aguardente, fumar o corpo até a última cinza de fumo.

-x-x-x-

É noite aberta, não há nuvens, não há quase luz na rua, não há lua. Apenas estrelas, muitas, muito mais que o normal.

Em cima do telhado Antonio ofega enquanto observa tudo isso.

- Todo nó ata e divide...
- Todo nó ata e divide...
- Todo nó ata e divide...
- Todo nó.

Sua respiração cessa, ele fecha os olhos, pende seu corpo para fora do telhado como um pêndulo e cai.

-x-x-x-

Todos choram.

Três beatas, entre elas D. Joana ajuntam-se em torno de Niscia com rosários. Homens retiram os móveis da sala.

Com a sala vazia as mulheres se dirigem para a copa, estendem uma toalha, dispõe candelabros, talheres, louça e prataria. Ascendem as velas e servem a mesa com café e bolachas. O som é o assovio das velas, o silvo da chaleira e o tilintar da prataria e da louça.

Posta a mesa elas tornam a sala, a decoram com coroas de crisântemos e mandacarus vermelhos, revoltosamente vermelhos.

-x-x-x-

Abre a porta, Julio entra na sala onde está seu pai, sua mãe e a outra, ele dá a mão à mãe.

- Ele não volta, não é?

- Não filho, não volta.

- É bom para onde ele foi?

- Não sei.

O olhar de Niscia atravessa a outra.

-x-x-x-

Toca a campainha e Niscia atende. A outra está na soleira da porta, assim que esta vê Niscia diz:

- Há dois anos que seu marido divide o amor dele entre nós, achei que você deveria saber. Ele não saberia como contar. Não vim para brigar, não me importo em dividir. Soube que Julio fez aniversário semana passada, parabéns, deve ser um lindo garoto.

Niscia foi incapaz de reagir. Assim que terminou a outra deu as costas e foi embora.

-x-x-x-

A outra foi incapaz de sustentar o olhar de Niscia, abaixou seus olhos e fixou-os em Antônio.

- Com licença... - Niscia soltou a mão do filho e saiu da sala.

Ao chegar ao banheiro ela abriu a torneira para escutar a água. Retirou o véu e cravou os olhos no espelho. Não podendo fazer mais nada, retirou o vestido do corpo, o espelho da parede e sentou-se no sanitário com o espelho nas mãos. Melhor, com o espelho nas luvas porque as luvas ela não tirou, não poderia.

Viu seu desconfortável corpo nu e contorcido sentado no sanitário, achou-se feia. Travou-se no reflexo dos olhos até ver neles Antonio.

Urinava, muito, descontroladamente; Não dava conta disso.

Assim que sentiu completamente vazia limpou-se, pendurou o espelho e fechou a torneira.

-x-x-x-

- Você era amiga do papai?

- Eu era.

- Você sente falta dele?

- Você sente?

- Muita.

A outra encara os sapatos vermelhos sob o véu, constrangida com aquele garoto, aquela forma viva que ela sempre soubera que existia e sempre ignorou. Agora ele era mais Antonio para ela; qualquer coisa que fosse dele, sua mulher, seu filho, sua casa, sua bebida, seu pó, seu resto. Tudo aquilo era Antonio para ela.

-x-x-x-

Rute viu Antonio na platéia, reparou que durante todo o espetáculo ele não pôde tirar os olhos dela. Isso ocorria com freqüência, mas esta fora uma das poucas em que isso a interessara.

No fim do espetáculo ela pediu ao produtor que o chamasse para o camarim, que dissesse que alguém do elenco gostaria de conhecê-lo.

Rute estava terminando de se trocar quando Antonio entrou.

- Quer me conhecer?

- Não, o produtor disse que você queria.

- Ele disse isso porque achei que você quisesse.

- Por que você achou que...

- O que você lembra do espetáculo?

- Quase tudo, ótima estória...

- Que personagem o velho fazia?

- Eu... Não lembro.

- Por isso... Está bem. Se você não quer me conhecer pode ir embora então.

Antonio voltou-se para a porta, mas hesitou. Olhou Rute:

- Suponha que eu queira te conhecer...

- No sentido bíblico?

Desde aquele dia, sempre que Rute estava em cartaz, Antonio dividia seu amor entre a esposa e a atriz.

-x-x-x-

Niscia entra na sala seguida por Joana - mãe de Antônio - e duas beatas. Niscia permanece no mesmo silêncio de outrora, agora mais vazia que antes, as três se impõem na força de seu rosário.

- Niscia...
- Não.

A outra não se pode mais conter, pende a cabeça e em silêncio sai da sala.

Niscia retoma sua posição enquanto as beatas postam-se atrás dela, mais forte a oração.

- Meus pêsames...
- Meus pêsames...
- Meus pêsames minha nora.

- Meus pêsames. Meus pêsames Joana.

- A comunidade toda irá ajudar...
- Sua família não ficará desamparada...
- Providenciaremos advogados para os bens...
- Tutores e empregadas para ajudar com Julio...
- De confiança...
- De confiança...

- Obrigada por tudo. A ajuda é bem vinda, agora se me dão licença gostaria de falar com Joana a sós.

- Claro...
- Claro...

Sem perder a compostura, ambas saíram entre ofendidas e curiosas, como é de praxe entre as beatas.

- Existe algo a se fazer por você minha filha?

- Não. Existe algo que eu possa fazer pela senhora, minha sogra?

- Não.

O silêncio corta o ar e dança entre as velas e o silêncio do morto, tão grande que faz qualquer outro silêncio barulhento, insuportável mesmo.

Joana aproxima-se muito do filho. Murmura:

- Que seja bom onde você estiver, que sentirei falta todos os dias, que Deus lhe proverá tudo que...

- Ele tinha segredos com a senhora?

Joana não entende a pergunta.

- Eu não cobrava explicações.

- E se ele te prometesse algo que não fosse capaz de cumprir?

- Quando ele tinha nove ele me jurou de pés juntos que rezaria o terço comigo toda novena, não agüentou nem dois dias.

- Você recordou-o da promessa?

- Não, eu sou mãe, eu perdoei.

-x-x-x-

- Não durma comigo hoje.

- Perdão Niscia, eu gostaria que meu coração fosse menor, mas ele é grande, grande para dois, grande para três, grande para mais.

Os lençóis são azuis e lilás, a noite que entra da janela é a única fonte de luz.

- Eu não basto? Não sou suficiente?

Os vultos formados por ambos criam geometrias que ora se amam e ora se cortam.

- Ela cavou um espaço em mim que não existia e este espaço é dela, eu não falto para você.

Julio dorme no quarto ao lado um sono profundo, cheio de sonhos.

- O que ela tem de especial?

- No teatro, como ela brilha no palco! Ela no palco é como você com Julio... puro.

Rute se maquiava, as cortinas abririam em cinco minutos, algo nela já dizia que se Antonio aparecesse, seria apenas depois do espetáculo.

- Quando você a conheceu?

- Ela sabia como isso estava me afetando, eu não quero segredos, mas não sabia dizer, então ela tirou este fardo de mim. Eu amo ambas Niscia.

É noite aberta, não há nuvens, não há quase luz na rua, não há lua. Apenas estrelas, muitas, muito mais que o normal.

Antonio não deseja ver Rute antes de juntar Niscia, então fuma. A fumaça clareia o que há dentro e esconde o que há fora, a fumaça não vem mais do cigarro, a fumaça brota direto de Antonio para Antonio. Aguàrdendo, ele anda no escritório pela noite.

Já é quase meia noite, o único que dorme é Julio; Niscia é uma pedra em sua cama – sonâmbula, congelada – Rute põe e tira a maquiagem no camarim horas depois do fim do espetáculo já certa que não verá Antonio esta noite; Antonio consome a própria vontade até que se rasgue na única certeza: não pode viver. Precisa juntar Rute e Niscia.

Depois de tragar a última gota de fumaça e beber a última cinza de aguardente a decisão se anuncia.

Os grilos são a orquestra, Antonio sobe o telhado, encara a noite, ofega e declama:

- Todo nó ata e divide...

-x-x-x-

Todos choram.

Estende-se um tripé no centro da sala, ascendem-se velas em torno do tripé. As três senhoras procedem seu rosário mais baixo enquanto Niscia se retira. Tratam de abrir a casa, cada porta, cada janela, cada portão, tudo é destrancado.

Noutro cômodo mais escuro, um homem morto, nu.

A mão de Niscia escorre o peito do homem e ela tenta fechar os dedos por sobre seu tórax, com força, com unha.

Lacuna. Gilete.

A barba estava por fazer, cuidadosamente ela passou a lâmina, aparou os cabelos desgrenhados e vestiu o paletó - como se fosse vivo.

Niscia entra novamente seguida por quatro homens, eles carregam um caixão que é posto em cima do tripé, as flores, as velas.

-x-x-x-

- A senhora nunca se sentiu traída?

- Não por meu filho.

- E seu marido, soube que ele foi assassinado. Nunca quis saber quem foi?

- Meu marido era escória, pagaria a seu assassino.

- E Julio. Como nasce um filho sem pai?

- Eu criei Antonio sem pai. Meu marido – que Deus o tenha e o castigue – morreu dias antes do parto. Às vezes a memória de um pai é melhor que o pai. É uma cruz em nossa família os pais morrerem antes de gozar dos filhos.

- Adianta perdoar um morto?

- Não. Se você culpava meu filho não volte atrás agora, perdoe um vivo, seu filho que é inocente, deixe ele amar o pai. Eles vão entrar, prepare-se.

Niscia respira fundo, reúne em si a energia para o que virá.

- Mande-os.

Joana sai ao que começam a entrar uma a uma das quatorze pessoas, entre amigos e familiares, que não se cansam de consolar.

- Sinto muito...
- Ele foi muito querido...
- Ajudaremos em tudo...
- Foi injusto, ninguém merecia...
- Não faz sentido mesmo...
- Foi para um lugar melhor...
- Minha santinha vai interceder por ele...
- Julio vai precisar da mãe mais que nunca...
- Sê forte que só assim passa...
- A memória dele fica, não esqueça...

- Obrigada...
- Sim...
- Grata...
- É verdade...
- Nunca faz sentido...
- Deus te ouça...
- Bondade tua...
- E eu dele...
- Tomara que passe...
- Não há como...

Quando o último se retira, Niscia se encontra novamente sozinha com o caixão inerte, impregnado de morte, espalhando sua essência na sala, nos crisântemos, nos mandacarus, nas velas, nas paredes, no chão, nas sombras, nas pessoas, nas almas e não sei mais em quê que não sai. Não sai.

- Antônio...

-x-x-x-

Gilete. Lacuna.

Niscia tira as luvas para barbear o corpo, suas unhas estão vermelhas, escandalosamente vermelhas; seus dedos desejam aquecer a pele fria, seus dedos desejam por si só, desejam percorrer o tórax, o abdômen.

As mãos deixam a gilete testemunhar tudo dum canto.

Niscia abandona seu luto sentindo seu corpo tão nu quanto o corpo de seu marido. Ela divide sua vida com Antonio na ilusão de que ele possa dividir sua morte com a esposa. Ela senta em cima de seu corpo morto, apalpa seu sexo, esfrega desesperadamente o dela contra o dele num instinto sem sentido, sem razão, instinto mesmo.

-x-x-x-

Quando pensa que todos acabaram a outra entra.

- Niscia...
- Não sei, eu só... Licença.

Niscia volta para o banheiro com os pensamentos tão cheios que nem a torneira aberta poderia silenciá-los, ela não sabe para onde vai, não sabe se trancou a porta, não sabe se está vestida.

Sente apenas inchaço, como se algo imenso a preenchesse, a inflamasse, algo que a toma de seus pensamentos, de suas atitudes, de seus sentidos, definitivo, congelante.

Quando dá por si não são lágrimas – É urina. Urina sem dar por isso, urina cada lágrima que não verteu de seu rosto, urina a morte do marido, urina culpa por sua intolerância. Está sentada no sanitário, nua, esvaziando cada gota de saudade em si enquanto rói o vermelho das unhas, enquanto tenta arrancar a cor de sua pele.

Rute entra no banheiro com seus sapatos vermelhos, tranca a porta, despe seu luto completamente e fica nua frente à Niscia, exceto pelos sapatos, que ela não tira.

- Suas unhas ficam lindas de vermelho.

- Obrigada. Qual seu nome?

- Rute. Não há mais ninguém com quem dividir esta ausência.

Um líquido esverdeado e quente escorre pelo azulejo do banheiro caindo do meio de um par de sapatos vermelhos, mortalmente vermelhos.

Quando o pranto de ambas acaba Rute se limpa e vai sentar no colo de Niscia, que a envolve e é envolvida. Consolo.

Frio de corpos nus, calor de corpos entrecortados, Antonio morto na sala, duas viúvas no banheiro, um filho e uma mãe sem lugar, a oração das beatas. As unhas e os sapatos vermelhos, mas tão vermelhos!

Batem à porta. Ambas vestem-se, Rute se esconde e Niscia sai. A noite afrouxa, é hora de levar o corpo.

Niscia acompanha quatro homens levantarem o caixão e iniciarem a marcha em direção ao cemitério.

As luvas de Niscia ficaram no banheiro.

Ao seu lado por todo o caminho Rute a acompanha, o salto do sapato de Rute roça na perna de Niscia, as unhas de Niscia roçam o braço de Rute.

Todos choram por onde sentem saudade.

sábado, 26 de julho de 2008

Rosas amarelas

Marcela entrou em casa com os olhos semi-cerrados. Com o cansaço do dia lhe ardendo no corpo, ela se movia ausente de si pela casa, mecânica do costume das coisas.
Lançou um olhar rápido para a cozinha: tinha almoçado? Talvez não. Não importava, não sentia fome havia muito tempo, e se tinha, o apetite lhe faltava. Limitou-se ao copo d’água corriqueiro, que teria deslizado mais refrescante garganta abaixo caso ela já não estivesse tão distante das pequenas felicidades do mundo.
Tinha tantas obrigações, tantas correrias, tantos importantes e urgentes que vivia fora de si, virtual, mecânica e prática. Um corpo jovem e condicionado.
Sobre a mesa da sala, no entanto, percebeu as flores.
Eram as suas rosas amarelas, as que comprava quase todo dia, por uma necessidade muda, para colocá-las ali, no jarro.
Mas as rosas sempre amanheciam murchas.
Mas era assim mesmo: quase todo dia era preciso trocá-las, elas não duravam. Faria isso amanhã cedo, antes de ir trabalhar.
E foi dormir, gasta que estava do dia. Do mês, do ano, dos tempos. Tempos tão corridos que ainda lembrou-se de lançar um olhar pesaroso sobre os papéis do trabalho.
Vinha pensando em ir ao médico, porque também não andava dormindo direito. Os olhos fechavam, a mente afrouxava... mas ela permanecia ligada. Se sentia como um computador, esgotado de tantas informações vazando. E não podia desligar. Passava a noite consciente de que estava dormindo um sono agoniado, meio descanso, meio cansaço. Acordava de um salto: amanheceu! E saía saltando pela casa, fugindo do atraso que nunca tivera, e que, por isso mesmo, tanto temia. É que tinha um medo toda vez que olhava para o relógio: horas, minutos e segundos, vazando loucamente, escorrendo por ela, pelas coisas. E então corria junto, para não vazar também e perder o compasso.
Naquele novo dia, que acabara de estrear, não foi diferente: na hora marcada entre o relógio e o seu corpo ela pulou da cama, e saiu apressada pela casa, revisando na cabeça o de ontem e o de hoje.
E as rosas murchas! — era preciso correr em dobro, que ainda tinha a floricultura para passar.
Correu o triplo, para garantir.
Era o jeito das coisas na vida.
E saiu de casa com a certeza consoladora de que as rosas resplandeciam sobre a mesa, jovens e formosas. Como ela não tinha mais tempo de estar.
Horas depois, chegou em casa, no momento certo, marcado.
Fechou os olhos e inspirou fundo: que dia!
E, repentinamente, calma..., um bem-estar, um prazer tão sem propósito lhe invadiu o peito! Ainda abriu os olhos a tempo de ver as rosas brilharem, sobre a mesa.
Mas aquele era um instante eternamente perdido.
Pronto. Já tinha lhe escorrido pelo corpo, já não existia mais. O ar já era denso, pesado duma agonia tão grande, tão forte.
Foi dormir seu sono sofrido de todos os dias. As rosas, sobre a mesa, no entanto, morriam silenciosamente. Envenenadas.